Você pode não acreditar, mas só de você tomar uma xícara de café existe um componente árabe nesta frase. Assim como no alface da sua salada. Entenda como o árabe chegou ao português, e que marcas ele deixou, mudando e deixando seu legado nesta língua.

Ei, você aí! Provavelmente, assim que você acordou, tomou o seu café certo? Tirou o seu pijama de algodão. Sua mãe, tentando aumentar a sua imunidade contra o Coronavírus fez uma salada com acelga, beringela e limão. E depois, nas aulas a distância, a mais “nova” modalidade de ensino, aprendeu álgebra. Está bem, você pode não ter feito esse roteiro. Bem, pelo menos o café provavelmente você tomou. Contudo, posso lhe perguntar. O que tudo isso tem haver com o título deste texto? Simples, essas palavras nada mais são do que as respostas da influência árabe em nosso idioma, o português. Você pode não imaginar, mas temos um vocabulário comum com o idioma árabe e seu alfabeto um tanto peculiar para os ocidentais.

arabe-porugues

Com preguiça de ler toda toda a curiosidade? Então, aqui vai um resumo:

  • É verdade que o Português  vem da família indo-europeia. Já o Árabe vem da família afro-asiática. Ou seja, são completamente diferentes. Contudo, isso não é sinal de que certos cruzamentos linguísticos não pudessem acontecer.
  • E de fato ocorreu, em especial quando os árabes do Califado Omíada invadiram a Península Ibérica nos anos 700 d.C. Por influência dos Al-Andalus, o português passou a compor em seu vocábulo palavras deste idioma. E até hoje elas são devidamente utilizadas.
  • Os termos não se restringe a palavras que começam com Al, como Alfazema e Alecrim. Café, laranja, limão e até mesmo xadrez estão nesse rol. E até mesmo a saudação “Oxalá” tem influência árabe, sendo o original wašāʾa llāh.

Café, algodão, acelga, beringela e limão são apenas alguns exemplos da cultura árabe que fizeram a nossa língua se diferenciar inclusive de suas primas no ramo latino, como o castelhano e o italiano. Claro que até mesmo o espanhol (castelhano), o aragonês e o catalão por exemplo, tiveram suas influências. Contudo, o português, pela quantidade de vocábulos utilizados se “adaptou” de forma mais distinta que suas parentes. Mas é claro que para começar essa história, precisamos voltar no tempo. Séculos atrás, quando a divisão da Península Ibérica era bem diferente. Não existia Portugal nem Espanha como estados nesta localidade, mas sim outros reinos.

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Remontemos por volta do ano 700 depois de Cristo. Depois da queda do Império Romano do Ocidente, basicamente, a Península Ibérica era comandada por três povos. Os Visigodos eram os detentores das maiores porções de terra, tendo o próprio reino. Na região que hoje se encontra a Galícia e a parte norte de Portugal existiam os suevos. Eram povos de origem germânica. E por fim, mais ao norte, nas proximidades da Comunidade Basca atual os Vascões eram os senhores da terra. Mesmo que os três povos não fossem tão amistosos uns com os outros, seus poderes se mantinham equilibrados na Península. Até que do outro lado do Mediterrâneo, os povos muçulmanos buscavam aumentar a sua influência. Assim, invadiram a Península por meio de Gibraltar. O Califado Omíada ganhava o seu máximo em extensão, indo das Planícies do Rio Indo, na atual Índia até o extremo de Portugal.

Tomando praticamente todas as terras visigóticas e dos suevos. Somente uma porção dos vascões foi mantida, na região das Astúrias. A região ficaria sobre influência dos muçulmanos por volta de 700 anos.

A guerra em si, que na historiografia seria chamada de “Invasão dos Muçulmanos a Península Ibérica” terminaria ainda no mesmo século. Após a derrota do último rei visigodo, os muçulmanos não foram páreos para as forças locais. Tomando praticamente todas as terras visigóticas e dos suevos. Somente uma porção dos vascões foi mantida, na região das Astúrias. A região ficaria sobre influência dos muçulmanos por volta de 700 anos. A Península passaria a se chamar Al-Andalus. Já os habitantes convertidos ou oriundos da África que professavam o Islã eram chamados de mouros. Os territórios do norte de Portugal, contudo, ficariam por volta de cinco séculos sendo influenciados, uma vez a expansão da Coroa de Leão. Contudo, os árabes só seriam expulsos com as batalhas da Reconquista em 1.400, já na Idade Média.

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Porém, inevitavelmente, por ter passado cerca de quinhentos anos sobre a influência muçulmana, a língua local foi se adaptando, adquirindo termos dos povos invasores. O Português em especial, passaria a ter um maior número de vocábulos oriundos do árabe do que outros, como o castelhano e o catalão, por exemplo. Nunca se percebeu por exemplo o motivo de escrevermos e falarmos “alface”, sendo que a maior parte das línguas latinas e germânicas usar “lettuce”? Sim, o termo “alface” vem do árabe al-ḵassa. Na verdade, uma “forma” de observar as palavras que vieram do árabe é o início “al”. No árabe, esse termo é o artigo das nossas palavras, mas que acabou se tornando acompanhante das palavras aportuguesadas. Algodão por exemplo, também entra nesse mesmo estilo, assim como alambique (al-inbīq), alecrim (al-ʾiklīl), alfazema (al-ḫuzāmah).

Por isso, da próxima vez que você pensar em como uma língua se altera, pense que, mesmo sendo de famílias distintas, uma língua pode participar da construção de outra.

Durante a Idade das Trevas, a ciência e seus mais diversos ramos se desenvolveram bem mais na região árabe do mundo do que nos estados cristãos-ocidentais. Dito isso, não é incomum encontrarmos termos nas mais diversas áreas do conhecimento oriundos do árabe, como a Astronomia, a Biologia, a Administração. Enxaqueca (aš-šaqīqa), xadrez (aš-šaṭranj), laranja (nāranj) também entram no rol. Por isso, da próxima vez que você pensar em como uma língua se altera, pense que, mesmo sendo de famílias distintas, uma língua pode participar da construção de outra. O árabe, mesmo sendo do ramo semítico (tal como o Hebraico) da família afro-asiática deixou marcas no Português, da mesma forma que outros ramos, como o céltico. Mas é claro que isso é uma outra história, que pode ser contada outro dia…

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