POR QUE OS VAGALUMES PRECISAM MORRER TÃO CEDO?
Em um primeiro olhar, é comum que as animações sejam elencadas no rol de filmes produzidos para crianças. Mesmo que alguns momentos, como os da Disney em Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937), ou a trilha sonora em O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame, 1996) não sejam os mais apropriados para esse público. Nesse rol, vindo do Japão, o Estúdio Ghibli é um proeminente promotor de animações impecáveis, mas com uma profundidade que só a força do tempo faz com que seja possível entender suas mensagens. De A Viagem de Chirriho (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001) até Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997), é com O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988) que o estúdio dedica uma obra crua, sensível e com um impacto arrebatador sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
QUER ENTENDER OS HORRORES DA GUERRA? ESSA ANIMAÇÃO FAZ ISSO.
Sem poucos floreios, a animação dirigida por Isao Takahata é, de maneira definitiva, uma das mais impactantes, sendo também uma das mais impressionantes e necessárias. Lançado em 1988, O Túmulo dos Vagalumes se distancia de fantasias típicas, tanto do Estúdio Ghibli quanto de outras produções mais comedidas, e mergulha no realismo brutal de um período histórico e violento que até hoje deixou marcas na sociedade japonesa e nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. A direção de Takahata tem diversos adjetivos. De contida até quase contemplativa, sua estrutura está em capturar a essência emocional de cada cena proposta. Mesmo dramático, é possível perceber a tendência em evitar o melodrama. O Túmulo dos Vagalumes é uma tragédia crua, confiando na força das imagens, do medo e do silêncio para emocionar. A direção consegue, com um primor sem igual, conduzir o espectador por uma jornada emocional devastadora.

E essa jornada é beneficiada pelo roteiro, também de autoria Takahata. Na verdade, Tumulo dos Vagalumes é baseado no conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que morou na Cidade de Kobe durante os bombardeios americanos da Segunda Guerra. A narrativa é linear, mas utiliza flashbacks de forma eficaz para construir tensão e empatia. A estrutura da animação começa com o seu ápice, o que poderia ser um ponto negativo. Mas não é. Na verdade, é o prenúncio da tragédia, o que transmuta ainda mais emoção para os atos subsequentes da animação. O roteiro não é apenas uma linha para a ação dos personagens. Em Túmulo dos Vagalumes, existe uma história de guerra focada em mostrar como ela destrói os mais inocentes, explorando a relação entre os irmãos Seita e Setsuko com uma sensibilidade rara e difícil de encontrar em outro lugar.
EMPATIA É A PALAVRA. SOMENTE SENDO UM SOCIOPATA VOCÊ NÃO VAI SENTIR:
Sem dúvida, nada na animação seria tão emotiva se as vozes dos personagens não seguissem por esse caminho. Seita (Tsutomu Tatsumi) e Setsuko (Ayano Shiraishi) são dublados, em seus originais, com uma naturalidade tocante. Essa interpretação original entrega emoções contidas, muito pouco teatrais ou Shakespearianas, porém igualmente eficazes. E o mesmo ocorre na dublagem em Português da Netflix. Setsuko, a irmãzinha do personagem principal, em especial, é construída com uma inocência e fragilidade que tornam suas cenas profundamente comoventes. E não por menos terrivelmente tristes, quando, à frente do espectador, a dicotomia de inocência e crueldade aparecem. Essa atuação, aliada à animação minuciosa das expressões e gestos criadas pelo Estúdio Ghibli, cria personagens com os quais o espectador se conecta imediatamente. Cada lágrima, cada sorriso infantil de Setsuko, nos aproxima ainda mais da dor inevitável. É impossível não existir empatia com estes personagens.

Em termos mais técnicos, e mesmo sendo um filme de 1988, os efeitos visuais e a animação no geral de Túmulo dos Vagalumes impressionam mesmo na atualidade. O Estúdio Ghibli utilizou técnicas tradicionais de animação quadro a quadro que garantiram ao longa uma fluidez rara e uma atenção ao detalhe visual que brinca entre a beleza e o horror. No Ocidente, a última animação a usar essa formatação foi O Rei Leão (The Lion King, 1994). A explosão dos bombardeios, a devastação da cidade de Kobe, lar dos protagonistas, e até cenas simples como o reflexo da água ou uma brincadeira em um parque são trabalhados com um realismo lírico como se cada cena fosse uma história independente. A estética delicada da animação contrasta com a brutalidade do tema, e isso intensifica ainda mais a emoção que a animação desperta no espectador.
TODA A PARTE TÉCNICA DETÉM A QUALIDADE DOS ESTÚDIOS GHIBLI:
Esse conflito entre sutileza, beleza e crueldade também é ajustado pela trilha sonora composta por Michio Mamiya. Túmulo dos Vagalumes, em termos de sonoplastia, é sutil, quase ausente em muitos momentos, o que reforça o peso de sentimentos como a solidão e a perda. Quando estão presentes em tela, os temas são melancólicos e introspectivos. Nada mais justo. Afinal, o momento do filme é de guerra. O silêncio se torna algo fundamental e importante e o uso do som ambiente aumenta a sensação de realismo. Os aviões que chegam para bombardear, por exemplo, começam a surgir pelo som de suas turbinas. Criando, de certa forma, uma imersão considerável. No fim das contas, é uma trilha que não se impõe, mas que complementa perfeitamente o tom da narrativa. E isso não é um erro de O Túmulo dos Vagalumes.

Com a sonoplastia mais intimista, porém intencionalmente competente, a fotografia e a composição dos quadros são dignas de nota em Tumulo dos Vagalumes. Mais uma vez, o próprio Takahata compõe cenas que parecem pinturas, equilibrando luz e sombra para criar atmosferas específicas. Um dos mais emocionantes momentos, o do reencontro dos irmãos, é impecavelmente produzido, usando a iluminação dos vagalumes. A paleta de cores, de maneira geral, varia entre tons quentes e sombrios, refletindo o estado emocional dos personagens. Cada enquadramento vem para transmitir emoção, e a ausência de exageros estilísticos torna tudo mais real. O espectador pode estar ciente de que está vendo uma animação. Porém, o pensamento por trás de O Túmulo dos Vagalumes o torna, de forma espetacular, realista. No mundo dos jogos, algo parecido pode ser sentido com This War of Mine, de 2011, da polonesa 11 bit Studios.
TÚMULO DOS VAGALUMES É DIFÍCIL, MAS EXTREMAMENTE NECESSÁRIO:
É importante deixar claro que Túmulo dos Vagalumes não é um filme “divertido”. Isso é possível encontrar em outras animações, como Elementos (Elemental, 2023), da Pixar. O propósito é outro, o de provocar uma reflexão e sensibilizar o espectador, o que consegue com maestria ao ponto de que o espectador deve estar preparado para o que vai assistir. Nesse sentido, Túmulo dos Vagalumes se enquadra como algo inovador. Ele é uma prova de que desenhos animados podem ser tão ou mais profundos do que filmes tradicionais. Ao invés de seguir fórmulas, Takahata rompe expectativas ao usar a animação como ferramenta de denúncia. Essa abordagem inovadora ainda ressoa atualmente, e destaca que animações não precisam ser unidimensionais. Essa mesma intuição está por exemplo, com Pinóquio. Não o Live-Action da Disney, mas o dirigido por Guillermo Del Toro, que é uma verdadeira carta antifascista em forma de stop-motion.

No fim de todas as lagrimas, apertos no coração e lenços espalhados, Túmulo dos Vagalumes é uma obra-prima da animação mundial e um retrato inigualável do cinema de guerra. Com uma direção sensível, um roteiro poderoso e atuações vocais emocionantes, Tumulo dos Vagalumes também usa de uma estética que mescla beleza e dor, em uma experiência que, sem dúvida, é inesquecível. Não se trata apenas de uma crítica à guerra, mas de uma alegoria completa à inocência perdida. É um filme difícil de assistir, mas impossível de esquecer. Uma obra essencial, que deve ser vista com o coração aberto, e uma caixa de lenços por perto. Depois, você sentirá um vazio existencial que demandará tempo para absorver tudo o que o Estúdio Ghibli passou naquelas singelas imagens. Sem sombra de dúvida, não é um filme fácil de assistir. Porém, se torna poético.
Números
O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka) - 1988
Mostrando os momentos mais sombrios de uma guerra na figura dos irmãos órfãos Seita e Setsuko, Túmulo dos Vagalumes é um tapa no coração do espectador. Lindo, poético e profundo, nenhuma animação consegue chegar aos seus pés quando o assunto é a realidade. Mesmo que ela seja a mais sombria possível.
PRÓS
- Animação tradicional japonesa que se entrelaça com a história, criando uma dicotomia entre tristeza e beleza.
- Direção de Isao Takahata é inspiradíssima. Há um excelente uso das imagens apresentadas, e de como elas se complementam com outros elementos.
- O roteiro da animação, também de Takahata é um soco no estômago de um lutador profissional. Não é necessário nenhum, subtexto. Tudo é claro e terrivelmente real.
- Os personagens, mesmo sendo animações, são tão reais que facilmente o espectador cria empatia sobre sua luta pela sobrevivência e os pontos de vista dentro de uma difícil situação.
- Trilha sonora e fotografia podem não parecer das mais esplêndidas, mas conseguem se adequar a atmosfera melancólica que transporta para o Japão de 1945.
- O filme não é divertido, em hipótese alguma. Mas não era, e nem será essa a expectativa de ser uma animação quase realista.
- Túmulo dos Vagalumes se sobressai em termos de inovação por ser a animação que mais se aproxima da dureza de elementos de guerra de maneira tão profunda.
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