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Crítica: Dois Papas (2019) – Uma Conversa Íntima de Fé e Dúvida

Dirigido por Fernando Meirelles, Dois Papas, de 2019, oferece um retrato íntimo de Bento XVI e Francisco, com atuações e reflexões profundas.

Vitor Guariento por Vitor Guariento
maio 14, 2025
em Análises, Filmes, Netflix
Reading Time: 7 mins read
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O AMOR TEM MUITAS FACES… É UM ERRO PENSAR QUE PODEMOS VIVER SEM AMOR.

A Igreja Católica, sem dúvida, é uma entidade única. Com mais de um milênio de existência, seus ritos e sua hierarquia chamam a atenção, especialmente em momentos delicados. Um desses momentos é o Conclave. Mas existem outros, tal como uma renúncia papal. Embora não seja algo comum, o mundo moderno viu isso acontecer. Mais do que renunciar, a ação de Bento XVI (1927-2023) se acomoda em um momento de intensa dúvida sobre os rumos da fé. E é nesse contexto que Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles, também embarca. Reimaginando os eventos de transição entre Ratzinger e o então futuro Papa Francisco (1936-2025), o filme propõe um diálogo denso, mas acessível, sobre fé e mudança dentro da Igreja Católica. Em outras palavras, Dois Papas não é apenas uma obra cinematográfica, mas um ensaio visual e emocional sobre dois homens confrontando suas convicções, disponível na Netflix.

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Dois Papas (2019). Créditos: Netflix.

HOPKINS E PRYCE ASSUMEM O DUELO ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE:

Não há como negar que o grande ponto de Dois Papas seja a atuação de seus protagonistas, que evidenciam o conflito de ideias dentro da Igreja. Anthony Hopkins, de O Silêncio dos Inocentes (1991), entrega um desempenho contido e quase enigmático de Bento XVI. Seu olhar distante e pausas calculadas criam uma aura de introspecção e conflito interno. Por outro lado, Jonathan Pryce, no papel do cardeal Bergoglio, é seu contraponto. Caloroso, espontâneo e espiritualmente inquieto. A química entre os dois atores é palpável, sustentando os longos diálogos com carisma e veracidade. Essa dualidade dramática é o coração do filme. Há um peso da responsabilidade institucional que emana da atuação de Hopkins. Afinal, naquele momento, ele comanda uma legião de mais de um bilhão de fiéis. Enquanto isso, Pryce é a figura de uma esperança reformadora. Dois personagens altamente complexos, mas que em nenhum momento caem em arquétipos.

MEIRELLES É INTIMISTA, MESMO COM A GRANDIOSIDADE DO VATICANO:

Junto de uma atuação espetacular, Dois Papas também é agradável em sua direção. Fernando Meirelles, de Cidade de Deus (2002), brilha ao equilibrar a densidade dos diálogos com um ritmo visual que não cansa. Algo que, em um filme com tons biográficos, poderia facilmente se tornar enfadonho. O diretor aposta em planos fechados nos momentos de maior intimidade, destacando expressões faciais que dizem mais do que palavras. Fruto, é claro, da excelente atuação de seus atores. Há uma questão em evitar o espetáculo grandioso, como a corrida desenfreada de Anjos e Demônios (2009). Assim, Meirelles opta por uma abordagem quase documental. Essa escolha correta dá ao filme uma credibilidade estética e também emocional. Em um cenário onde a grandiosidade do Vaticano poderia ofuscar o conteúdo, a direção opta pela humanidade dos personagens. O resultado é uma narrativa que valoriza os gestos sutis e a escuta atenta do espectador.

Dois-Papas-Crítica-Filme-002
Dois Papas (2019). Créditos: Netflix.

O CONTRASTE ATÉ VISUAL ENTRE TRADIÇÃO E REFORMA:

Essa dualidade entre tradição e reforma está em todos os pontos de Dois Papas. E a fotografia não seria uma exceção. Produzida por César Charlone, colaborador frequente de Meirelles, a fotografia se divide entre o uso de tons quentes nos momentos de Bergoglio na Argentina, que contrastam com os cinzas austeros do Vaticano e do Papado. Essa transição cromática ilustra visualmente a distância não só física, como também filosófica do período de transição entre os Papas. Assim como seus pensamentos, que inegavelmente acabam por mudar os rumos da Igreja. O uso da luz natural dentro da Capela Sistina, recriada com uma precisão meticulosa, cria uma atmosfera quase sagrada e enigmática que somente a religião pode conceber. O trabalho visual não é apenas belo. Ele serve à narrativa, reforçando as diferenças e, no decorrer dos eventos, uma certa aproximação entre os personagens em Dois Papas.

TEMOS UMA LITURGIA AUSTERA NO MEIO DA MISSA:

Sendo intimista por natureza, Dois Papas não poderia ser um filme no qual a trilha sonora seja algo a sobressair até mais do que as emoções de seus personagens. Por sorte, ela se adequa como se fosse uma ladainha de uma missa. Bryce Dessner consegue ser sutil, mas também estratégico ao manter a fluidez mesmo com uma trilha sonora austera. Em vez de preencher todos os silêncios, a sonoplastia surge para intensificar momentos-chave de introspecção. Entre músicas litúrgicas e temas contemporâneos, a trilha cria um elo entre tradição e modernidade. Que no fim das contas é a ideia principal de Dois Papas. Além disso, o uso de sons diegéticos, como sinos e passos ecoando nos corredores do Vaticano, reforça a atmosfera solene. No fim das contas, é uma trilha que não quer emocionar à força, mas acompanhar os dilemas internos de sua narrativa.

Dois-Papas-Crítica-Filme-003
Dois Papas (2019). Créditos: Netflix.

DIÁLOGOS EXTREMAMENTE PROFUNDOS E QUE ENCANTAM COMO O LATIM:

Um roteiro complexo às vezes é agraciado pela crítica especializada, mas odiado pelo público geral. Dois Papas consegue a proeza de criar uma narrativa com uma profundidade absurda, mas palatável. O trabalho de Anthony McCarten é, sem dúvida, o segundo grande pilar da obra. Baseado em diálogos imaginados, mas verossímeis, no qual Bergoglio planejava ir até o Vaticano para se licenciar da hierarquia da Igreja. O texto evita caricaturas e expõe conflitos internos de maneira sensível. Ao transformar ideias complexas sobre dogmas e responsabilidade institucional em conversas compreensíveis, o diálogo se torna um espetáculo emocional. Há um excelente uso entre momentos de tensão e leveza, como o do Papa e do Cardeal quando assistem a uma partida da Copa do Mundo de Futebol. Essa cena, por exemplo, quebra a rigidez da narrativa e revela mais uma vez uma humanidade dos personagens, em especial de Bento XVI.

ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO DE DOIS PAPAS NA IGREJA CATÓLICA:

Dois Papas não é o tipo de filme que reinventa a linguagem do cinema, mas refina técnicas já conhecidas com maestria. A escolha de focar a trama em diálogos filosóficos e religiosos seria arriscada em outras mãos. E, na verdade, seria passível de desandar completamente o filme. Mas aqui se torna instigante, pois todos os seus outros aspectos caminham na mesma fila para a Capela Paulina. Até mesmo a produção, focada em efeitos práticos, não esquece do bom uso de efeitos especiais. Como obviamente é a recriação de Capela Sistina, que tem elementos verídicos da mesma forma que Conclave (2024). Dois Papas ainda mistura imagens de arquivo com encenações, um recurso que confere autenticidade histórica à narrativa sem perder sua identidade artística. Essa fusão entre ficção e realidade é uma das maiores conquistas do filme. Algo que facilmente o espectador poderia se perguntar se aqueles eventos realmente não ocorreram.

Dois-Papas-Crítica-Filme
Dois Papas (2019). Créditos: Netflix.

UM FILME ONDE A DIVERSÃO ESTÁ EM SE QUESTIONAR:

Apesar de sua seriedade temática, o filme oferece momentos de leveza e até mesmo humor contido, mas bem diferente de Habemus Papam (2011). Isso o torna acessível para públicos diversos, inclusive os que não têm familiaridade com a Igreja Católica e não sabem, ou não têm interesse nos ritos católicos. A diversão aqui vem da empatia pelos personagens, de sua humanização, e não de piadas ou algum tipo de ação. A sensação de estar testemunhando uma conversa privada entre dois líderes globais provoca curiosidade e fascínio. Se existe algo que pode ser levemente questionável em Dois Papas é seu ritmo. Seus 125 minutos de duração têm um ritmo lento, mas sem jamais ser algo monótono. Pelo contrário, é possível a todo momento se questionar de maneira profunda, em termos filosóficos e até mesmo sociológicos, com os pensamentos divergentes expostos nos diálogos entre Bento XVI e Francisco.

SERÁ QUE O FILME NÃO FOI MUITO FELIZ COM A FIGURA PAPAL?

Uma questão específica que pode ser alvo de questionamentos em Dois Papas seria o seu viés excessivamente simpático a figuras tão conservadoras e até mesmo questionáveis da Igreja Católica. Como o próprio Papa Emérito Bento XVI. Sua humanização acaba criando argumentos para entender os motivos de seus pensamentos. E isso não é um defeito, muito pelo contrário. No embate entre a razão e a fé, entre ciência e religião, por exemplo, o diálogo é o princípio. E mesmo entre um conservador e um reformista, é possível chegar a argumentos comuns, especialmente por estarem ligados pela fé. Dois Papas em nenhum momento busca criar uma certeza dos fatos ou julgar suas ações. O princípio é compreender seus personagens, suas ações e sua forma de mundo. Essa abordagem empática é especial no filme que, em termos de cinema, é uma obra madura, que respeita a inteligência do espectador.

Dois-Papas-Filme-Lista
Dois Papas (2019). Créditos: Netflix.

UMA CONVERSA DE FÉ E RESPEITO COM NOTA: 9.6/10.0.

Dois Papas é um filme que se destaca por suas atuações brilhantes, o cerne de toda a sua estrutura sem dúvida alguma. Hokins e Pryce encarnam seus personagens e suas nuances como se estivessem estudando seu estilo de vida. Além desse brilho de atuação, Dois Papas conta também com uma direção bastante sensível ao tema, uma fotografia precisa e bela e um roteiro inteligentemente construído. Tudo para que se tenha uma narrativa de conflito das ideias de mundo e do papel da Igreja. De outra forma, o filme é uma aula de cinema com propósito. É possível se emocionar sem que seja necessário recorrer ao sentimentalismo barato. Para quem busca um drama reflexivo, bem construído e com valor artístico e histórico, Dois Papas é uma escolha certeira, sem dúvida. Gostou da Crítica? Não deixe de explorar outros dramas biográficos e questões religiosas aqui, no Guariento Portal e no IMDB.

Números

Dois Papas (2019)

9.6 /10

Dois Papas, filme de 2019 dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles se destaca por suas atuações brilhantes, uma direção bastante sensível ao tema, uma fotografia precisa e bela e um roteiro inteligentemente construído. Todos se reúnem ao destacar o conflito de ideias em um momento de tensão da Igreja Católica e do mundo.

PRÓS

  • Atuações de primeira linha que desnudam ideias tão distintas na Igreja.
  • Direção intimista, e ao mesmo tempo, cuidadosa no esforço emocional.
  • Fotografia e trilha sonora são âncoras para toda a dicotomia do filme.
  • Narrativa, embora fictícia é estranhamente humana e verídica.
  • Edição cuidadosa, com momentos oportunos em uso de efeitos especiais.
  • Não inventa a roda, mas no que se propõe é um primor.
  • A diversão está em se questionar que mundo queremos.

Análise / Review

  • Diversão e Expectativa 0
  • Atuação dos Personagens 0
  • Enredo e Narrativa 0
  • Produção e Efeitos Especiais 0
  • Fotografia e Trilha Sonora 0
  • Direção do Filme 0
  • Inovação Cinematográfica 0

Melhor Preço:

$29
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Source: Vítor Hugo Guariento
Via: Guariento Portal
Vitor Guariento

Vitor Guariento

Morador de Japeri – RJ (Baixada Fluminense para os mais íntimos). Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRRJ e Pós Graduando em Defesa Nacional pelo IMES. Outrora Agente Administrativo, agora Auditor Federal. Campeão da Região de Johto e Herói de Hyrule. Fundador do Guariento Portal, site destinado a curiosidades e críticas de filmes e jogos em geral.

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