De um Império controlado pelo Xá para uma República Islâmica dominada pelos aiatolás. A Revolução Iraniana de 1979 mudou o tabuleiro do Oriente Médio, e transformou um aliado dos Estados Unidos em um de seus maiores inimigos na região.

Revoltas sociais são encontradas no decorrer da história humana. Da Revolução Industrial até a Queda do Antigo Regime na Revolução Francesa. Porém, o século XX foi notável pela quantidade de acontecimentos. Não por menos, o historiador Eric Hobsbawn escreveu a Era dos Extremos, apenas para vislumbrar o período que vai de 1914 até 1991. Duas Guerras Mundiais, a Bipolarização do Mundo, guerras separatistas na África e na Ásia, ditaduras na América do Sul. O contexto de fato é impossível de ser escrito em apenas um único momento.

Contudo, vamos deixar outros assuntos importantes de lado e focar num Estado que alterou-se completamente após uma revolta. E que depois da instalação de seu novo Regime, por meio de uma Revolução Islâmica transformou ainda mais o Oriente Médio em um barril de pólvora. Situação até hoje vivida na região. É claro que estamos falando da antiga Pérsia e sua Revolução Iraniana em 1979.

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Ruhollah Musavi Khomeini, um dos protagonistas da revolução Iraniana discursa para a população. Após o plebiscito, ele seria escolhido como Aiatolá, o Chefe Supremo da República Islâmica do Irã até a sua morte.

Com preguiça de ler toda toda a curiosidade? Não devia, pois deu trabalho e é interessante. Mas, se mesmo assim você prefere um resumo de uma situação já resumida sobre a Revolução Iraniana, aqui vai:

  • Na década de 50 do século XX, o hoje território do Irã na verdade era um império dominado pelo Xá, o título da monarquia local. Aliado aos Estados Unidos, o Xá derruba seu primeiro ministro com ideias estatizantes. Ao mesmo tempo, a partir de 1953, aumenta a repressão contra seus adversário, com o uso de sua polícia, a Savak.
  • Sua aliança com o Ocidente criou um ponto de tensão entre a cultura ocidental e os conservadores muçulmanos. Aos poucos, o Xá conseguia perder o apoio de vários membros da sociedade. Com a corrupção e o Choque do Petróleo na década de 70, o país passa a empobrecer mais rápido, embora os desejos do Xá ainda se mantivessem.
  • Foi somente com a Sexta Feira Negra, em 1979, que o próprio Xá derrubou seu governo, ao transformar a opressão em massacre. Diversas classes sociais se reuniram por todo o Irã, e Reza Pahlavi não teve outra escolha senão fugir de seu antigo Império.
  • A Monarquia foi abolida, e a República Islâmica nasceu na Revolução Iraniana. Ruhollah Khomeini, exilado na França se tornaria a cada da Revolução e dos mais conservadores. Transformando-se logo após em Chefe Supremo (Aiatolá do Irã), e mudando de uma vez por todas o eixo cultural e diplomático do Irã e do Oriente Médio.

Antes da Revolução Iraniana, o Irã já foi um dos maiores aliados dos Estados Unidos. Anteriormente nas mãos de uma monarquia, quem comandava era o Xá. Título para os monarcas persas e da região do Afeganistão. Mohammad Reza Pahlavi era seu nome. Contudo, em 1951, o primeiro ministro do país, Mohammad Mussadeq deu um duro golpe nas potências ocidentais a partir do petróleo. Ele estatizou as petrolíferas estrangeiras na Pérsia, o que irritou especial Estados Unidos e Reino Unido, que tinham negócios instalados na região. O governo tornou-se dividido e o Xá deixou o país. O monarca só retornaria em 1953, quando, com o apoio norte americano, dá um golpe de Estado e derruba Mussadeq.

Com o poder em mãos uma vez mais, o Xá governaria o Irã com mãos de ferro. Dissidentes e qualquer um que dissesse algo contra o seu governo era rapidamente reprimido pela Savak, sua polícia pessoal. Neste tempo, o Irã passou a se “ocidentalizar” em termos culturais, com seu amparo ao governo dos Estados Unidos. Cinemas e a moda ocidental se distinguiam dos costumes islâmicos. Rapidamente, essa fuga aos costumes regionais passaria a ser visto como uma afronta para uma ala mais conservadora de religiosos.

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Homem segura cartaz com o rosto do futuro Aiatolá do Irã. Ao fundo, a Torre Azeri em Teerã, construída em 1971 para comemorar os 2.500 anos do Império Persa.

A situação começa a desandar cada vez mais com o Primeiro Choque do Petróleo, em 1973. Afinal, o Irã até aquele momento era um parceiro exportador de petróleo para os Estados Unidos. Porém, esse país já desigual começou a perceber ainda mais a diferença entre o Xá e todos os outros habitantes. Enquanto a classe média se tornava cada vez mais pobre, os pobres viviam em situação degradável. A corrupção era conhecida dentro do governo iraniano e os prazeres do Xá não condiziam com sua nação. Era comum que ele pedisse lagostas trazidas de Paris para jantar, ou festas monumentais em que o Império custeava. E, quanto mais a população se revoltava com os devaneios do Xá, mas a repressão aumentava.

Enquanto o Xá tivesse o apoio americano, britânicos e de partes das potências ocidentais, o monarca se via seguro em seu trono. No entanto, a situação começa a azedar em 1977, quando a Comunidade Internacional, e o Presidente Norte Americano Jimmy Carter avisam que o governo deveria mudar. Ou se mostrava pró-direitos humanos ou sofreria embargos, especialmente de seu maior aliado até aquele momento. Esse embargo não seria somente econômico, mas também em termos de armamentos, importante para as práticas ditatoriais do governo. Temendo esta perda de apoio, o Xá fez algumas concessões.

Perdendo rapidamente o apoio de uma população que já não gostava de seu governo, o ataque que dizimaria suas chances de manter o trono do Irã seria feito por ele mesmo. Em 8 de Setembro de 1978, o Xá determinou ao seu exército um enfrentamento, chamado de Sexta Feira Negra.

Além de liberar alguns revoltosos contrários ao seu Regime, ele buscou fazer uma Reforma Agrária, que Carter havia solicitado. Essa Reforma simplesmente enfureceu as lideranças islâmicas, já descontentes com o governo. Foi o suficiente para declararem uma Guerra Santa contra o Xá. Perdendo rapidamente o apoio de uma população que já não gostava de seu governo, o ataque que dizimaria suas chances de manter o trono do Irã seria feito por ele mesmo. Em 8 de Setembro de 1978, o Xá determinou ao seu exército um enfrentamento, chamado de Sexta Feira Negra. Essa revolta se tornou um massacre, com noventa pessoas mortas.

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Homens queimam na rua foto do Xá da Pérsia durante a Revolução Iraniana.

Isso foi o suficiente para convulsionar as classes do Irã, de simples agricultores até mesmo líderes religiosos. Cada um a sua maneira, esses grupos, naquele momento se reuniram para demonstrar o desafeto ao Xá e retirá-lo do governo de uma vez por todas. Esse é o início da Revolução Iraniana em sua forma final. Reza Pahlevi ainda tentou se manter, alterando a Constituição com argumentos mais moderadores. Porém, a população já não o queria mais. Ele teve de sair as pressas do Irã, e se exilou em 16 de Janeiro de 1979.

Com o Xá deixando o Irã, uma figura antes exilada já havia ganhado os holofotes na revolta que se iniciara. Ruhollah Khomeini, exilado na França era uma figura de destaque que insuflava a população e dava voz a Revolução Iraniana. Em especial os mais conservadores e os clérigos muçulmanos. Quinze dias depois da partida do Xá, Khomeini retorna ao Irã e se mostra como uma liderança de cunho radical. Pelo menos para os valores ocidentais e a vontade Norte Americana. Khomeini destacava que a ocidentalização do Irã era uma afronta aos princípios muçulmanos e via os Estados Unidos como o grande causador do sofrimento do povo iraniano. Uma vez seu claro posicionamento em manter o antigo monarca no poder.

Com o Xá fora do trono, coube ao próprio Irã decidir sua forma de governo. O que foi feito através de um plebiscito no mesmo ano. Contudo, se por um lado um inimigo havia sido derrotado, os grupos que outrora se uniram começaram a se digladiar pela busca de poder. Rapidamente, os mais moderados e liberais foram descartados de qualquer forma de governo. Já os apoiadores do Xá só tinham uma escolha; o exílio ou a morte por alta traição.

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Durante manifestação da Revolução Iraniana, homem queima bandeira dos Estados Unidos. O país se transformou no principal alvo pelo seu apoio explícito as políticas do Xá. E por ter auxiliado o seu retorno e a derrubada do primeiro ministro Mohammad Mossadegh em 1953.

Com o plebiscito oriundo da Revolução Iraniana, a Pérsia deixa oficialmente de existir como Império. Em seu lugar, uma República Islâmica Presidencialista.

Com o plebiscito oriundo da Revolução Iraniana, a Pérsia deixa oficialmente de existir como Império. Em seu lugar, uma República Islâmica Presidencialista. Nesse governo, mesmo com a figura do Presidente, o Aiatolá, o líder religioso é o derradeiro Senhor Supremo do Irã. Comandante Supremo das Forças Armadas, ele pode vetar propostas do Parlamento Iraniano. Também cuida de assuntos específicos, como os pleitos da República, podendo deferir ou indeferir candidatos. A sua disposição, existe o Conselho dos Guardiões – órgão que pode também identificar impropriedades em propostas legislativas e também a Assembleia dos Peritos, o Tribunal de última instância no Irã.

Normalmente, para manter o grupo mais conservador, tanto o Conselho quanto a Assembleia são constituído de clérigos conservadores. Sendo que a Assembleia dos Peritos é a responsável por escolher entre seus pares o novo aiatolá após a morte de seu antecessor. Uma vez que este cargo é vitalício dentro da República Iraniana. Obviamente, a reação ocidental não poderia ser outra a não ser protesto. E o Irã mudava drasticamente de um Império ligado as potências mundiais para um problema dentro do jogo político do Oriente Médio.

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A Família Imperial Iraniana. O Último Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi. Ao centro, o Príncipe Herdeiro Reza Pahlavi e a Última Imperatriz Consorte Farah.

Vendo o Irã como um novo inimigo, rapidamente os Estados Unidos intensificaram suas propostas para a região, em especial pelo fato do país ter se aliado ao eixo socialista na Guerra Fria. Foi então que Washington armou milícias no Afeganistão (que depois se tornariam a Al-Qaeda). Apoiaram também o ditador Saddam Hussein em sua empreitada contra o Irã na Guerra Irã-Iraque em 1980. Depois, a Casa Branca passou a condicionar apoio ao regime da Arábia Saudita, igualmente conservador nos costumes, porém um inimigo provável ao Irã para a dominação regional do Oriente Médio que, não bastando toda a dinâmica política, também conta com problemas religiosos.

Isso se deve ao fato de que, embora Irã e Arábia Saudita adotem a mesma religião, o islamismo, eles são de denominações distintas. Teerã adotada o xiismo, o mesmo visto na maior parte da população do Iraque. Já Riad adota o sunismo, a principal denominação do mundo islâmico. Esse desafeto só contribuiu ainda mais para a diminuição do diálogo e o aumento dos conflitos. A Revolução Iraniana pode não ter surgido do conflito milenar entre sunitas e xiitas, mas foi um pretexto para que este grupo passasse a ter cada vez mais problemas. E, sem dúvida, esse problema é o próximo assunto do Guariento Portal.

#História #Curiosidades #Irã

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