Entendendo a escalada do Oriente Médio com Civilization (PC)

Uma leve utilização de Civilization (PC) para tentar entender o conflito entre os Estados Unidos e Irã. A geopolítica é bem mais complicada do que parece.

Mais do que uma análise de jogos, hoje o assunto é um pouco diferente. Ao menos uma vez na vida, você deve ter escutado o nome da série Civilization. Lançado em 1991 e criado por Sid Meier, a série é um fenômeno, e está em sua sexta versão. Nela, é possível controlar uma nação e levá-la a glória, ou a derrota. Além de evoluir em tecnologias, o título eleva a diplomacia a um outro patamar. E, mesmo que sendo distinta da do mundo real, consegue passar a dificuldade que é a forja de acordos com nações tão díspares entre si. Claro que tudo isso é interessante quando estamos no meio de um simulador. Uma espécie de ambiente controlado. Agora, e quando as armas se tornam reais? As vezes simples ações podem ter consequências irreversíveis, em um estouro de um efeito borboleta.

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O acontecimento em tela, caso ainda não esteja entendendo, foi o ataque dos Estados Unidos contra Qassem Soleimani. Este homem, líder da Guarda Revolucionário do Irã foi morto em um ataque de mísseis no Aeroporto Internacional de Bagdá, no Iraque. Os Estados Unidos destacaram e virulência que Soleimani era, afinal, era um dos responsáveis pela estratégia iraniana contra os Estados Unidos. Sob sua guarda, o Irã passou a ter correligionários em diversos cantos do Oriente Médio. O Hezzbolah no Líbano, o Hamas na Faixa de Gaza, grupos insurgentes no Iêmen, na Síria e até no Iraque. Todos são apoiados, diretamente ou indiretamente pelo regime do Aiatolá Khamenei, o Líder Supremo do Irã atualmente. No entanto, se as coias parecem ser tão simples quanto um conflito entre Washington x Teerã. O que se vê na prática é uma situação bem mais nebulosa.

Afinal, com o ataque americano em solo iraquiano que matou um general iraniano, o que pode acontecer? A primeira, e mais rápida consequência é a variação nos preços do petróleo. E é fácil de explicar. Se você jogasse com o Irã, teria o controle parcial do Estreito de Ormuz. Esse pequeno pedaço do oceano é responsável por cerca de um quinto do transporte mundial de petróleo do mundo. Sabendo que os Estados Unidos são os principais importadores desta commoditie, a simples ideia de barrar as embarcações em Ormuz é capaz de disparar os preços do petróleo. Assim como de todos os seus derivados e de todas as empresariais envolvidas na produção do mesmo. Uma tática, dentre todos os exemplos, fácil, e que causaria estragos a nível global de maneira rápida.

A segunda consequência pode ser vistas nas áreas periféricas, e não entre Teerã e Washington. Mais do que um terrorista aos olhos dos americanos, Qassem Soleiman era respeitável em seu país. Além de exímio estrategista, também foi um dos responsáveis pela queda do Estado Islâmico e visto como herói nacional. É certo que com a morte de um líder, o Hezzbolah possa projetar ataques no Líbano e em Israel, da mesma forma que o Hamas. A insurgência no Iêmen pode ainda ficar mais forte, com um governo bastante combalido. Outros alvos podem ser inclusive a Arábia Saudita e o Kuwait, uma vez seu alinhamento com os norte americanos. Por mais que exista um clamor pela sua reação, Teerã sozinho não detém poder bélico frente aos americanos e ao regime de Riad. Para isso, precisaria contar com o apoio de seus aliados de longa data, Pequim e Moscou.

Até a presente data, uma espécie de aliança já foi formada somente pelas indicações dos porta vozes. Síria e Rússia se colocaram aliados ao Irã, indicando sua discordância com o ocorrido em Bagdá. Já Israel, pelo seu relacionamento se colocou ao lado dos americanos. A China se manteve neutra, embora seja sabido sua relação com o governo de Teerã. Essa segunda consequência de fato é ainda mais gravosa a longo prazo. Já que com as áreas periféricas responsáveis pelo combate, as nações atacadas não ficarão quietas. Com um recrudescimento, Israel poderia se tornar um agente indireto no conflito, atingido alvos no Líbano, na Síria e até mesmo no Irã. A Arábia Saudita também poderia entrar na disputa, trazendo uma bagagem de conflito étnico a toda a região.

Com um conflito de fato na região, nem mesmo Civilization poderia contar com uma terceira consequência; o fluxo de refugiados. Se, desde o problema na Síria a Europa já vem diminuindo sua disposição para abrigar refugiados da região asiática e africana, com um conflito entre três das principais economias da região o desastre humanitário é questão de tempo. O problema da guerra levará a uma escalada humana novamente para áreas como a Turquia, os Bálcãs e o Mediterrâneo. Cenas como a de milhares de imigrantes em barcos diminutos atravessando desesperado o continente se tornariam ainda mais comuns. Para uma escalada ainda maior como a que levaria a Segunda Guerra Mundial em 1939, exigiria-se um acontecimento ainda maior.

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Tanto os Estados Unidos quanto a Rússia e a China, abertamente se colocassem em lados opostos do conflito. E mais, se tornassem peças de fato no tabuleiro de batalha, levando exércitos e maquinário a níveis bélicos não vistos por exemplo, na Guerra da Síria. Se colocarmos as regras do simulador de PC, é possível destacar que o caso americano é uma grave ameaça a soberania de um Estado. Até pelo fato de ter ocorrido no Iraque, e no título, sempre que o jogador deseja atacar alguém automaticamente a guerra é decretada. Contudo, as nuances do mundo real permitem que isso aconteça sem nenhuma represália.

O jogo de alianças, tal como em Civilization, pode levar a uma guerra desenfreada ou a um arrefecimento, uma vez que o conflito pode não ser o melhor caminho. Enquanto outros atores de importância internacional, como a China e a Rússia não se colocarem diretamente no conflito, a escalada ficará a nível regional. Não que isso já não seja ruim, mas o ataque americano inevitavelmente levará uma represália iraniana. Seja ela política, econômica e dificilmente militar. Teerã usará de todas as formas para demonstrar o seu poderia na região. Os Estados Unidos fizeram sua jogada, agora é hora de esperar o turno passar e ver o que o Irã, e todos os seus aliados farão.

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