Um Terror Indiano que Transforma o Lar em Pesadelo
Shaitaan é um longa indiano disponível na Netflix e feito pela Panorama Studios. Como filme, ele prefere navegar pelo lado psicológico do terror do que por sustos fáceis. Desde sua introdução, a obra estabelece um clima de ameaça, e o espaço familiar é o palco desse horror. Sendo um remake de Vash, filme em Gujarati de 2023, ele constrói sua narrativa a partir da perda de controle. Ele explora temas como a manipulação da vontade, seguindo o significado de seu nome no Islã. Ao invés de criaturas como Valak de A Freira (2018), ou a violência explícita de Eli Roth, Shaitaan nasce da presença humana e da invasão emocional. Para o Guariento Portal, Shaitaan representa um exemplo claro de como o cinema indiano vem dialogando com o horror global. E, ao mesmo tempo, mescla tradição e linguagem moderna. Não é uma experiência perfeita, mas é sólida dentro desse gênero.
É um terror que testa o espectador:
No que se refere a diversão e a expectativa, Shaitaan é direto. Ele deixa claro que não pretende agradar a todos os públicos. O filme aposta em uma tensão prolongada com situações que se repetem. Como se fossem as rodas do samsara nos conceitos hindus. Isso cria uma experiência mais angustiante do que divertida. E esse é seu principal ponto positivo. A expectativa cresce através de diálogos e decisões que soam cada vez mais erradas. Para fãs de de filmes como Hereditário (2018), esse ritmo funciona. Agora, para quem busca sustos constantes, pode gerar frustração. Há momentos em que o filme parece esticar a mesma ideia além do necessário. Afinal, são 132 minutos de duração. Algo que cria momentos de frustração. Ainda assim, a atmosfera nunca se dissipa por completo. Como um filme puro, Shaitaan é irregular. Porém, como forma de experiência, o filme entrega o que propõe.

O verdadeiro motor do terror em Shaitaan é a atuação:
As atuações são o destaque de Shaitaan. E isso não é algo a se questionar. R. Madhavan, como o feiticeiro Vanraj, é um bom antagonista. Ele não se utiliza de excessos, mas sua figura é perturbadora. Existe um carisma e frieza para dominar cada cena. Sua presença transforma diálogos simples em momentos de tensão. Ajay Devgn, como Kabir, entrega um pai fragilizado. Muito distante do arquétipo heroico tradicional, o que reforça o drama e a sensação de impotência. Jyothika sustenta bem o peso emocional de Jyoti, uma mãe em colapso. Com ela, temos o equilíbrio entre medo e desespero. Porém, o maior destaque é Janki Bodiwala, vulnerável e ao mesmo tempo cruel. Não por menos, a atriz também esteve no longa original e retornou neste, agora em Hindi. Mesmo quando o roteiro se alonga, o elenco mantém o público envolvido. E isso torna a escolha do elenco um acerto.
Uma boa ideia, mas não é única:
O enredo de Shaitaan parte de uma premissa eficiente. Porém, acaba sofrendo com escolhas comuns no gênero. A história se desenvolve de forma linear. As situações se repetem para reforçar o horror. Em um primeiro momento, essa abordagem funciona por ser a novidade. Com o tempo, porém, gera sensação de estagnação. Fãs experientes do gênero conseguem prever rapidamente o fim do filme. Da mesma forma que aconteceu com O Exorcista: O Devoto (2023). E isso reduz o impacto das revelações finais. Mesmo assim, o roteiro de Aamil Keeyan Khan tem seus acertos. Ele evita explicar de forma excessiva, o que preserva o mistério. Porém, falha em aprofundar seus temas de forma mais ousada. Inclusive a leitura do filme. A ausência de grandes reviravoltas limita o potencial da trama. O resultado é um enredo funcional, mas que não surpreende dentro do terror moderno.

Competência técnica, mas sem ousar:
Em termos de produção, Shaitaan aposta em um caminho seguro e funcional. O filme evita efeitos visuais exagerados, uma vez que essa não é a sua intenção. Assim, ele prioriza soluções práticas e sugestões visuais que reforçam o terror. Essa escolha contribui para a imersão e evita que a obra envelheça mal, mas também limita seu impacto visual. A direção de arte transforma ambientes comuns em espaços de opressão. E, ao mesmo tempo, explora bem a sensação de confinamento mesmo em uma enorme casa. Ainda assim, há cenas em que uma abordagem mais criativa poderia intensificar o horror. A produção, do próprio Ajay e do diretor, cumpre seu papel com eficiência. É impossível não se sentir dentro da história. Porém, ela não é impressionante. Tudo funciona, nada salta aos olhos. É um trabalho sólido, mas contido. Ele serve à narrativa sem expandir o lado estético ou visual.
A atmosfera acima de criar um impacto:
A fotografia de Shaitaan é uma das essências que sustentam seu clima. O uso de sombras e enquadramentos fechados reforça a ideia. É uma forma de aprisionar o espectador e os personagens. A câmera frequentemente observa à distância, o que leva a criação de expectativa. Já a trilha sonora aposta em sons ambientes e ruídos sutis. Ao mesmo tempo, ela evita temas mais invasivos. Essa escolha favorece o suspense, que é contínuo na história. Porém, reduz o impacto nos momentos finais. Em especial o terceiro ato, que torna tudo ainda mais sobrenatural. Em algumas cenas, o silêncio é mais eficaz do que a música. Já em outras, a ausência de um tema forte diminui o peso dramático. Mesmo assim, no conjunto, a fotografia e o som trabalham bem juntos em Shaitaan. Isso cria uma identidade coerente, ainda que possa ser esquecida com o tempo.
Um condução que sabe onde quer chegar:
A direção de Shaitaan demonstra domínio em criar sua atmosfera e no controle do ritmo narrativo. Vikas Bahl sabe trabalhar o silêncio e a presença do antagonista. Assim, temos momentos de calmaria antes do avanço da história. A condução dos atores é precisa e consegue trazer os momentos de confronto. Aqui, os olhares e pausas dizem mais do que diálogos. No entanto, a direção opta por caminhos seguros. O que evita, por um lado, momentos narrativos mais densos. Essa escolha garante coesão, mas também limita o impacto do filme. O suspense funciona, a tensão se mantém, mas raramente surpreende. De forma geral, o longa indiano tem uma direção competente. Ela é consciente de suas ferramentas e do estilo que usa. Porém, vai por caminhos cautelosos para um gênero que se beneficia da ousadia. Então, o que sobra é um filme regular, que segue apenas a cartilha.
Um terror pouco ousado:
Shaitaan em termos de inovação é um filme conservador. A obra utiliza elementos já conhecidos do gênero do horror. É o caso da manipulação mental e a invasão do espaço doméstico. E não se propõe a variações significativas dessa fórmula. Não é um Ghostface de Pânico (1996), mas sua estrutura é similar. Embora haja um contexto cultural que poderia ser mais explorado. Ele o é, no terceiro ato, mas apenas como um lembrete do sobrenatural. Isso torna a experiência acessível, mas que não será tão lembrada. Não há questões visuais ou narrativas fragmentadas que ampliem o alcance da obra. Shaitaan funciona bem dentro do que se propõe, mas não avança o gênero nem deixa marca autoral forte. A inovação existe mais na execução cuidadosa do que na proposta em si. Talvez pelo subtexto de uma cultura diferente do padrão do ocidental. Mas a inovação se encontra apenas nesse ponto.

Shaitaan vale a experiência, mas não redefine o seu gênero:
No fim das contas, Shaitaan é um terror competente. Ele se sustenta por grandes atuações e com uma atmosfera sufocante. Porém, esses pontos se diluem nas escolhas, bastante tradicionais. O filme funciona como uma experiência, e não como inovação dentro do gênero. Não espere encontrar um longa de M. Night Shyamalan. Seus acertos superam os erros, especialmente no elenco e na construção de tensão. Mas falta ousadia para tornar o longa inesquecível. Para quem acompanha o cinema indiano ou busca um horror menos dependente de sustos, a experiência é válida. Não é um novo clássico, mas cumpre seu papel com dignidade e provoca reflexão. Mas então para você, Shaitaan, como terror funcionou? Ou faltou ousadia? Deixe sua opinião por aqui. Assim, você ajuda o Guariento Portal a crescer como espaço de debate sobre cinema e cultura pop. Seja na Índia ou no Brasil.
Números
Shaitaan (2024)
Shaitaan é um terror competente que sustenta por grandes atuações e com uma atmosfera sufocante. Porém, esses pontos se diluem nas escolhas, bastante tradicionais. Seus acertos superam os erros, especialmente no elenco e na construção de tensão. Mas falta ousadia para tornar o longa inesquecível e marcar o espectador.
PRÓS
- Um filme para quem gosta de ficar na angústia ao invés de sustos fáceis.
- Tanto a família quanto o antagonistas são claros e sem excessos.
- O uso de efeitos práticos aumenta a imersão do público na história.
- Uma fotografia que sabe oprimir os olhos, mesmo nos lugares mais abertos.
CONTRAS
- O enredo, embora consiga produzir angústia, apenas usa os clichês do gênero.
- A direção poderia ser mais autoral ao usar o terror de outras formas.
- Embora com a cultura hindu, inovação não é um conceito chave neste filme.
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