Quando o jogo trava na democracia.
Golpe de Estado é um termo complexo. Ele parece saído de livro de história, mas continua mais vivo que nunca. Trata-se de uma tentativa de tomar o poder à força. Isso é ignorar as eleições e a vontade popular. Não é preciso tanques nas ruas ou marchas militares, embora ter o apoio das Forças Armadas facilite. Agora, basta desinformação, apoiadores radicais e uma fraqueza institucional. Foi o que pode ser visto em 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram a Praça dos Três Poderes em Brasília, no Brasil. O mesmo aconteceu em 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio em Washington, nos Estados Unidos. Em ambos os casos, a ideia era clara. Havia uma tentativa de impedir uma troca de governo. Mesmo que isso fosse uma violação da Constituição.
Mas então, o que isso tem a ver com videogame? Muita coisa. Afinal, jogos também são políticos e não apenas para diversão. Eles podem falar de conflitos históricos, guerras e até meio ambiente. Alguns, inclusive, funcionam como simuladores de poder e da manipulação. Eles ensinam, mesmo sem querer, como se articula um golpe. Um paralelo ao mundo real. São elementos como discursos populistas, controle de informação e o fim da oposição. Dois títulos mostram isso com clareza. O primeiro deles é Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty, que previu a manipulação digital como arma política. O segundo é Tropico 5, onde você pode sofrer um Golpe de Estado com cliques e decretos. Ambos ajudam a entender o que aconteceu. E também explicam o que pode acontecer de novo, se desligarmos o botão da consciência democrática.
Metal Gear Solid 2 é o golpe que vem do Wi-Fi:

Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty, de 2001, é obra de Hideo Kojima. Um nome conhecido da indústria dos jogos, responsável por Death Stranding (2019) e Castlevania: Lords of Shadow (2010). Porém, aqui, ele deixa de lado o combate mais clássico e coloca o jogador em um campo de batalha moderno, o da informação. A trama do título gira em torno dos Patriotas. Trata-se de uma entidade que manipula os dados, a mídia e a própria percepção da realidade. O golpe é digital, silencioso e total. O objetivo é controlar a história. Tudo para distorcer a verdade. Isso lembra algo? Basta olhar como a desinformação foi usada, seja no Brasil quanto nos Estados Unidos. Metal Gear Solid 2 é um aviso profético. Um golpe de Estado não usa farda, ele usa Wi-Fi.
Mesmo com visual de jogo antigo, Metal Gear Solid 2 é brilhante em sua crítica à manipulação moderna. E numa época em que a Inteligência Artificial era algo distante. Ele mostra como governos podem ser dominados sem derramar uma gota de sangue. Afinal, basta se infiltrar na mente coletiva com mentiras bem embaladas. Não por menos, uma mentira dita mil vezes tem ares de verdade. É uma distopia real. Aqui, o povo acredita que luta pela liberdade. Porém, na verdade, está sendo guiado por algoritmos e ideologias opressivas. A missão do protagonista não é salvar o mundo com uma bazuca, mas descobrir quem está puxando as cordas invisíveis. Em um mundo onde tweets e redes sociais mudam rumos políticos, Metal Gear Solid 2 não parece mais ficção científica. Ele se transformou em cobertura jornalística interativa.
Tropico 5 é o golpe com sotaque caribenho:

Por outro lado, em Tropico 5, de 2014, o jogador assume o papel de “El Presidente”, governando uma ilha caribenha. Aos moldes do caso real de Cuba, aqui é possível ter liberdade para ser um líder amado. Ou um ditador carismático. A democracia aqui é maleável que nem gelatina. Você pode manipular as eleições ou censurar a imprensa. No fim, pode ainda decretar estado de emergência. E se o jogador cometer ainda mais abusos? Bem, ele pode sofrer um golpe militar interno. Tropico 5 é óbvio. A estabilidade é equilíbrio. Uma balança entre povo, os militares e os interesses estrangeiros. É um tutorial para regimes autoritários. Só que disfarçado no gênero de construção de cidades. É tão didático que quase dá vontade de colocar no currículo de sua graduação de Ciências Políticas.
Contudo, acontece que o mais assustador em Tropico 5 é como ele traduz situações reais com bom humor. Mas também com uma dose de cinismo. Um governante pode tentar alterar leis para se manter no poder. Ele também pode usar a desinformação. Essa é a justificativa para seus abusos. Aqui, o jogador pode se divertir, mas também refletir. O jogo mostra que muitos golpes começam dentro do sistema. São manobras, discursos e o uso estratégico das forças de segurança. E isso é bastante familiar. São discursos que se encaixam quando se tenta invalidar eleições. Ou, quando se insuflam apelos militares. Seu intuito é a derrubada de poderes e tribunais. Tropico 5 revela que o golpe não precisa ser explosivo. Para o fim do Estado Democrático de Direito, basta ser conveniente. E também, bem realista.
O golpe é uma expansão da democracia que não volta atrás:

Golpes de Estado não pertencem só aos livros de história. E nem mesmo a regimes autoritários distantes na Ásia ou na África. Eles podem surgir no coração de democracias modernas. Mesmo com uma urna ao lado e a desinformação sendo espalhada no celular do seu bolso. Assim, jogos como Metal Gear Solid 2 e Tropico 5 explicam, com genialidade e ironia, como o poder pode ser manipulado. E das diversas tentativas dele ser tomado. Eles anteciparam o que vimos acontecer em Brasília e em Washington. E seus desdobramentos tão diferentes no Brasil e nos Estados Unidos. Por isso, é sempre bom lembrar. A democracia é diferente de um jogo. Afinal, ela não tem salvamento automático. Se a gente perde, não dá para refazer a missão. Então, o jeito é arcar com as consequências que vão perdurar por décadas.
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