Microfones e marcianos. A grande pegadinha radiofônica.
Era noite de 30 de outubro de 1938, véspera de Halloween. Um jovem Orson Welles, a mente por trás de Cidadão Kane (1941), decidiu transformar um programa de rádio da CBS em um teatro de destruição interplanetária. Ele adaptou A Guerra dos Mundos, romance de H.G. Wells de 1897. Pelas ondas do rádio, a obra foi conduzida no formato de boletins jornalísticos. Assim, o que era para ser uma celebração de Halloween virou um conto de ficção distópica. Alguns ouvintes, aqueles que perderam o aviso, acreditaram que a Terra estava mesmo sendo invadida. E que sua primeira vítima era a cidade de Nova Jersey, uma adaptação de Welles para aproximar a história do público americano, diferente da Londres do romance. Jornais exageraram o pânico, que foi mais localizado e amplificado por emissoras rivais, prenunciando o fenômeno das fake news no século XXI.

A Guerra dos Mundos é uma enorme peça de colonialismo invertido.
Pouca gente percebe, mas A Guerra dos Mundos nasceu como uma crítica elegante e meio amarga ao colonialismo europeu. H.G. Wells escreveu o livro no século XIX, numa época em que potências como o Reino Unido metiam o bedelho em metade do planeta usando a famosa diplomacia das canhoneiras. Ou seja, diplomacia feita na base da bala. Seus reflexos até hoje são sentidos, como a Questão da Palestina e o conflito de Índia e Paquistão. Ao inverter os papéis, com marcianos destruindo a Inglaterra sem piedade, Wells criou um cenário onde os civilizados viram os colonizados. E o choque tecnológico é esmagador. Imagine as populações africanas ou asiáticas encarando navios a vapor e rifles pela primeira vez. É mais ou menos o que os humanos sentem diante dos alienígenas. É quase como se os aliens dissessem: “agora é a nossa vez”. E com sotaque imperialista.
Esqueça o imperalismo, agora é tudo mais direto, e com explosões.
Décadas depois, esse subtexto imperialista pode ter sido posto de lado em um cinema pipoca e com explosões hollywoodianas. Em 2005, Hollywood decidiu que já era hora de causar pânico de novo. Mas desta vez com Tom Cruise fugindo de tripods alienígenas que transformam humanos em purê com seus raios lasers. O filme Guerra dos Mundos, dirigido por ninguém menos do que Steven Spielberg, de clássicos como Tubarão (1974) e Jurassic Park (1994), atualiza a história com efeitos modernos, gritos mais altos e uma Dakota Fanning traumatizada em metade do tempo. O filme de Spielberg traduz o medo do desconhecido para a era pós-11 de setembro, onde os tripods alienígenas ecoam a impotência do Ocidente diante de ameaças externas. Uma forma de remeter ao subtexto de Wells sobre a fragilidade dos impérios. Em vez do rádio, agora o caos vem com cortes rápidos e muito CGI.

Não é apenas nos filmes, os jogos também tem inspirações.
A influência de Wells, porém, vai além do cinema hollywoodiano, alcançando até narrativas mais alternativas em outras culturas, como a russa, que explora o mesmo medo em contextos únicos. Além do filme russo A Era da Escuridão (2011), que explora invasões alienígenas em uma Moscou pós-soviética, evocando a fragilidade de uma sociedade em transição, temos o jogo The War of the Worlds: Siberia. Ainda em produção pelo estúdio moscovita 1C Game Studios, o jogo mistura o período final do Império Russo com invasores alienígenas, em um gameplay experimental que combina narrativa histórica e ficção científica, reimaginando o medo do desconhecido de Wells em um cenário gelado. Assim, no jogo, Petrogrado, a atual São Petersburgo, enfrenta uma invasão alienígena alternativa, distinta da Londres do romance. O jogo, aliás, consta como um exclusivo para o PC… Enquanto seu status continua como em desenvolvimento.
No fim, quem venceu A Guerra dos Mundos? Foi a paranoia.
No fim das contas, seja em 1938 com a fake news acidental de Orson Welles, ou em 2005 com a gritaria e as explosões modernas de Steven Spielberg, Guerra dos Mundos continua mexendo com o medo do “e se?”. Esse, aliás, é um tema central da ficção científica que questiona nossa solidão ou não no universo. O que alimenta todas essas obras é o medo de que, em algum canto do universo, raças desconhecidas observem a humanidade com intenções hostis. É esse medo de não estarmos sozinhos que fomenta a criação de novas mídias, como a alternativa versão de mundo de The War of the Worlds: Siberia. Talvez o maior perigo não sejam os marcianos de Wells, mas nossa tendência a transformar narrativas de medo, como alienígenas ou fake news nas redes sociais, em tripods que devastam nossa percepção da realidade.

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