Num momento em que o terror é recheado de sanguinolência e membros decepados, fraturados e com um senso em que risos são proibidos, é “diferente” a existência de um filme que não segue essa cartilha próxima de O Albergue e O Massacre da Serra Elétrica. Ao invés disso, embora a escatologia seja a marca registrada, há momentos propositais que de tão gritantes fazem com que o espectador ria. Sim, gargalhadas acontecem em um filme de terror. Especialmente com alguém que sabe como misturar muito bem a comédia com o terror, o chamado “terrir”. E o nome deste homem é Sam Raimi. Conhecido por ter feito também A Morte do Demônio, o diretor trás novamente um mundo peculiar em Arraste-Me para o Inferno. Resta saber é claro se esse retorno às origens vale realmente a pena, nesta Crítica do Revisitando o Passado aqui no Guariento Portal.
Aviso: Para uma Crítica mais detalhada e com o toque de humor necessário, é óbvio que o Guariento Portal tocará em pontos primordiais de Arraste-Me para o Inferno. Então, desnecessário falar que teremos alguns spoilers relacionados a trama para que você, meu querido leitor ou leitora capte todas as nossas informações. Se quiser ver o filme primeiro e depois comentar aqui o que achou, sinta-se a vontade. Se discordar completamente da posição desta Crítica, sinta-se a vontade para escrever e debater conosco. Só não nos amaldiçoe por isso. Não fizemos nada demais a não ser escrever sobre um filme.
A junção do Brasil com o Egito, ou melhor, do terror e da comédia.
Arraste-Me para o Inferno entra naquele rol de filmes que definitivamente, não é um terrível terror que fará com que você tenha pesadelos por semanas. Na verdade, sua peculiaridade é que ele é divertido ao unir dois estilos tão distintos. É claro que os básicos de cenas assustadoras, com o bom uso dos sons, da câmera e das sombras estão presentes. E criam até certa agonia. Porém, algumas situações são tão exageradas que acabam levando a um riso, e de certa forma voluntário. Pois quase tudo dentro de Arraste-Me para o Inferno tem um sentido. Até mesmo as cenas mais viscerais e escatológicas. É nesse excesso construído de propósito que temos uma narrativa que lembra e mundo o tempo em que Sam Raimi fazia filmes com o orçamento de um copo de caldo de cana e um pastel vendido na feira.

Pode parecer contraditório a união destes dois estilos, mas ela consegue se perdurar na construção da ambientação e de seus personagens. Desde o prólogo, que demonstra o que está reservado para a protagonista, como a dualidade entre a razão e a espiritualidade, o bem o mal que estão aqui como um barco pelo Rio Aqueronte, levando o defunto para o seu efetivo fim. Logo, entre em mente que o espectador de Arraste-Me para o Inferno deve levar em mente que o longa pode ter algumas centelhas de O Exorcista e O Grito, devido a questão mais espiritual ao usar uma maldição como enredo. Contudo, pouquíssimos serão os momentos em que a pessoa vai se pegar temendo o antagonista caprino e a vida da protagonista, que vira literalmente um inferno depois de uma ação pensada, mas que gera consequências terríveis.
Boa junção de direção, atuação e sonoplastia que Chthlon adoraria ver.
Outro ponto de bastante destaque em Arraste-Me para o Inferno é a atuação de parcela do elenco. Mesmo com uma história e premissa tão simples quanto perguntar se existe alguém em uma cena no escuro, Alison Lohman e Lorna Raver roubam todas as cenas que aparecem. A primeira, responsável por encarnar a protagonista Christine Brown tem trejeitos e faz cara de assustada. Até pelo fato de que os momentos que ela vive pós-maldição realmente tirariam qualquer sorriso dos lábios. Além disso, Lohman apresenta camadas acinzentada a personagem no decorrer da narrativa, trazendo até questões como “o que você faria para sobreviver?” No entanto, quem brilha é a Sylvia Ganush de Lorna Raver. Assustadora, nojenta e vingativa, ela, além de trazer a maldição, em cena se mostra uma pobre velhinha cigana, mas que se irritada não tem problema algum em castigar alguém ao inferno.
Todos os outros personagens basicamente giram em torno de Christine Brown, depois que ela nega um refinanciamento pela terceira para a Senhora Ganush. Tudo isso almejando uma futura promoção dentro do banco onde trabalha. Isso faz com que praticamente 100% do tempo do filme, a protagonista de fato é muito protagonista. Seu namorado, o médium que a auxilia primeiramente e depois a médium que cria o vínculo com o prólogo de Arraste-Me para o Inferno são apenas peças, peões que ficam no bolso de Lohman e todas as ações sujeitas depois da aparição não de um dybuuk, mas de Lâmia, o demônio invocado pela senhorinha cigana. Assim, o espectador vê durante três dias dentro do filme o desespero cada vez maior de Christine em livrar sua alma de ser puxada para o inferno, como diz o título do filme. Mesmo que para isso gatinhos fofos sejam assassinados.
Efeitos práticos e uma narrativa rápida dão o tom do filme.
Essa parcela de boa atuação, além mais uma vez parabenizada pela direção de Sam Raimi, também se traduz como um todo dentro de Arraste-Me para o Inferno. Isso pelo fato de que atuação, o bom uso de câmera e a sonoplastia deixam um gosto amargo, e no bom sentido dentro da obra. Sam Raimi, desde o já mencionado A Morte do Demônio sabia como ninguém brincar com o escuro, com as sombras que mostram mais do que devem e com o barulho dos ventos. E aqui ele repete essa receita como um chef de cozinha premiado. As câmeras inclinadas e os cortes rápidos são sua marca registrada, que pode ser visto também em uma célebre cena de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Já a sonoplastia, a cargo de Christopher Young consegue emitir em sintonia quase ritualística o decorrer da narrativa.

E, ainda nessa seara do “terrir”, momentos mais nojentos, com direitos e insetos invasores de corpos, muita baba, gosma e vômito estão presentes em Arraste-Me para o Inferno. Parte destes efeitos aliás, percebe-se o uso de efeitos práticos, que torna a cena ainda mais escabrosa, porém no bom sentido. Afinal, esse estranhamento e dimensionamento do impensável vêm da cartilha prática de Raimi em suas obras. Existem momentos em que a graça se faz presente também com efeitos visuais, embora elas sejam mais negativas do que positivas. Em determinado momento, um bode branco é colocado dentro de uma sala para servir de hospedeiro ao seu parente espiritual. No entanto, os efeitos para que isso dê certo não são bons. Assim sendo, quando Arraste-Me para o Inferno usa efeitos práticos, ele se torna algo maior do que quando faz jus do dinheiro para gastar com efeitos especiais.
A bola de cristal de um vidente cego poderia prever o fim.
Dando uma finalizada quanto aos aspectos mais iluminados do filme, o tempo da narrativa sem dúvida não deixa nenhuma forma de cansaço. As informações dos personagens secundários são como dito, secundários. Eles se encontram presentes apenas para pincelar a vida de Christine Brown a seu destino fatídico. É óbvio que, um filme com o nome de Arraste-Me para o Inferno e com o prólogo que já demonstra o triste fim de um garoto que apenas “roubou” uma caravana cigana, não seria menos indicar que o caminho já estava trilhado. Mesmo com a burrice da personagem principal, cega para se livrar da maldição de quase qualquer forma. Assim, o terceiro ato brinda toda essa galhofa com um final seco, mas eficiente para terminar a história daquela forma. Entretanto, nem tudo é tão certo assim, e alguns buracos são bem evidentes, sem precisar que Lâmia abra os olhos de Sam Raimi.
O primeiro deslize para o inferno em Arraste-Me para o Inferno é paradoxalmente também o seu roteiro. Produzido pelos irmãos Ivan e Sam Raimi, temos aqui uma história de uma maldição que em três dias leva o seu amaldiçoado para as profundezas ao lado do cramulhão. E isso não é uma viagem como Dante e Virgílio ou um simples jogo. Sem delongas, isso é visto logo na cena inicial. Porém, esses elementos mais sobrenaturais são simplesmente jogados na tela, com a informação de que existem e ponto. Uma profundidade maior dentro dessa temática poderia pender o filme para algo mais aterrorizante, que, diante de sua mescla com a comédia acaba se deteriorando com o passar do tempo. Assim, Arraste-Me para o Inferno não é um filme que precise entender os contornos sobrenaturais, eles estão ali apenas para ser o pano de fundo dos acontecimentos.
Não é magia e nem tecnologia. Mas um checklist do “terrir”.
Soa até estranho dizer isso. Porém, nos momentos em que o terror está na tela, e não surte o mesmo efeito do que seus congêneres poderiam trazer. É claro que não são em todas as cenas, mas especialmente naquelas que usam os jump-scares. Ou, se você não se lembra da linguagem cinematográfica, é aquele momento em que um som alto e uma imagem rápida aparecem na tela, quase como uma mensagem subliminar de certas linhas de cosméticos na TV. Se bem construído, o jump-scare pode trazer uma sensação de pavor genuína, mas em Arraste-Me para o Inferno, essa vontade só é vista quando o diretor usar calmamente todos os componentes em tela, a tríade atuação, som e sombra para criar, dilapidar o que está por vir. De outra forma, jump-scares neste filme acabam não funcionam.

Assim, por mais que o “terrir” seja uma área completamente calejada em que Sam Raimi se aventura, Arraste-Me para o Inferno é apenas um checklist de tudo aquilo presente neste tipo de empreendimento. Claro que em determinados pontos, ele pode até criar uma aura própria. Porém, não se engane, pois não é o filme em si, mas sim o bom trabalho do seu diretor. Não por menos, é fácil entender o longa como uma espécie de universo paralelo do já tão mencionado A Morte do Demônio. Isso é claro pode tirar alguns pontos de criatividade, de momentos que seriam mais bem aproveitados. Mas, se tratando de um projeto desta envergadura e com esta tendência, Arraste-Me para o Inferno mostra tudo que um espectador que busca um terror para rir pode ver. Claro que com muito vômito envolvido no meio.
No frigir dos botões, é um checklist, porém bem-feito.
No fim das contas, Arraste-Me para o Inferno é a volta dos que nunca foram, ou melhor, daquele que nunca deveria ter saído do gênero que o trouxe ao estrelato. Sam Raimi sabe como ninguém, podendo ser chamado até de papai dessa construção, ao unir tão bem e cinicamente a comédia escabrosa com o terror escatológico com tons sobrenaturais. E Arraste-Me para o Inferno é exatamente isso. Logo, não espere por algo obscuro e extremamente voltado a cortes corporais e massacres. Isso fica em outro ponto da história. Aqui, com uma narrativa rapidinha e com alguns subtextos que remetem a ganância e a questão de até onde o ser humano pode chegar, somos espectadores de uma maldição cigana que, em três dias, levará o destinatário para o reino do fogo eterno.
A atuação da dupla protagonista e antagonista é peculiar e passa toda a sensação mesmo que as palavras não sejam as melhores. A construção das locações e o excelente uso do jogo de luzes e sombras e os efeitos práticos também trazem ao mesmo tempo nojo com pitadas de risada e o terror que o diretor já está tão bem acostumado. É claro que Arraste-Me para o Inferno tem seus problemas sérios, como os dois lados de uma leitura de um jogo de cartas. Os efeitos especiais não são bons, o uso de jump-scares não rende o que deveria e é claro, não há uma imaginação forte por parte dos acontecimentos. Assim, o longa é uma ode, uma premiação de tudo aquilo que o “terrir” pode produzir. Uma espécie de prêmio por serviços prestados ao mundo cinematográfico.
Divertido? É relativo, depende do que você considera bom.
Desta forma, depois de ler esta Crítica do Revisitando o Passado aqui no Guariento Portal você pode se perguntar. Então, Arraste-Me para o Inferno do Sam Raimi é divertido? A resposta é positiva, mas com ressalvas. Lembre-se caro leitor e espectador, que o filme está voltado para estes dos gêneros como gêmeos siameses. Logo, não há como desvencilhar um de outro. Assim, se você busca um terror como os protagonizados por Pazuzu, Pinhead ou Freddy Krueger, sendo este último os primeiros na verdade, esqueça, pois você não encontrará a resposta no fim do túnel. Agora, se procura um longa que tenha picos de terror, seja igualmente engraçado, despretensioso, com momentos absurdos e bem com a alma de Filme B. Sim, sem dúvida Arraste-Me para o Inferno deve ter um pouco de sua consideração. Só cuidado com os botões que você acidentalmente venha perder de sua camisa.
Números
Arraste-Me Para o Inferno (2009)
Vindo da mente de Sam Raimi, Arraste-Me Para o Inferno é um filme quase autoral. Trazendo o rápido argumento de uma maldição, com o bom uso das sombras, de efeitos práticos escatológicos e uma atuação adequada, o longa se mostra como uma correta lista de tudo que mais se adora no gênero "terrir".
PRÓS
- Uma junção não usual entre terror e comédia que surte resultado com uma aura quase própria.
- Ótima direção de Raimi com o uso da câmera e do planejamento das cenas e de tudo que tem nela.
- Atuação focada na dupla protagonista e antagonista, que levam agradavelmente a narrativa do filme.
- Efeitos práticos muito bem utilizados, de forma nojenta é verdade. Mas era este o real sentido.
CONTRAS
- A história embora curta, não apresenta pormenores, sendo sem profundidade.
- Efeitos especiais e jump-scares não funcionam na maioria das cenas.
- Não há inovação em absolutamente nada, sendo uma junção de tudo que já vimos em outros filmes nesse estilo e do próprio Raimi.