O terror nacional também está presente no mundo dos jogos.
O que você pensa quando se mencionam jogos de terror? Florestas escuras como as de Fatal Frame: The Maiden of Black Water (2015)? Ou então fantasmas ocidentais que sussurram em latim, como no filme O Exorcista (1973)? Não importa! Afinal, o Brasil também sabe assustar. Nos últimos anos, estúdios nacionais têm provado que o horror pode ser tropical, denso e original. Uma mistura de mecânicas modernas com simbolismos locais, críticas sociais e o bom e velho medo do desconhecido. E não estamos falando de sustinhos baratos. São experiências profundas, com narrativas que incomodam e ambientações que grudam na mente. Esses três jogos brasileiros não apenas dão medo, mas também dão orgulho. Prepare-se para enfrentar cultos, demônios, exorcismos e o terror psicológico dentro de apartamentos apertados. E sabe o melhor? Esses jogos são bons de verdade.
Fobia St. Dinfna Hotel (2022) é o terror em Santa Catarina.
Produzido pela Pulsatrix Studios, de São Paulo, Fobia St. Dinfna Hotel não é obra do acaso. Na verdade, é o tipo de jogo que parece ter saído direto da prateleira de clássicos como Resident Evil, da Capcom e de Silent Hill, da Konami. Porém, diferente dessas franquias, Fobia tem o DNA 100% brasileiro. Aqui, o jogador se encontra na pele do jornalista investigativo Roberto Leite Lopes que se hospeda no misterioso Hotel Santa Dinfna. O hotel na serra catarinense guarda segredos muito além de sua história. Desaparecimentos, fenômenos paranormais e um culto estranho são apenas o seu café da manhã. A câmera antiga, usada para alternar entre dimensões, adiciona uma camada única e revela quebra-cabeças que lembram os momentos da Mansão Himuro de Fatal Frame (2001), com pitadas do estilo metroidvania e de H.P Lovecraft.
O visual de Fobia St. Dinfna Hotel impressiona, especialmente pensando se tratar de um estúdio independente. O título conta com uma iluminação precisa e detalhes que reforçam o clima claustrofóbico e perturbador. Sua atmosfera é inteiramente opressiva e, embora possa se inspirar em grandes títulos como Outlast (2017), o jogo tem a coragem de criar seus próprios passos. Afinal, não basta apenas sobreviver, é preciso desvendar não só o passado, como também o futuro. Com dublagem e menus em português do Brasil, Fobia é o terror que nos coloca na mira da sanidade. Lançado em 2022, o jogo tem uma versão demonstrativa e ganhou versões para as plataformas da Sony e da Microsoft, além do PC. Além disso, Fobia conquistou o prêmio de Jogo Brasileiro do Ano no Brasil Game Awards de 2022, reforçando sua qualidade.

Blasfêmia (2025) vem de Goiás para atormentar os jogadores.
Um apartamento silencioso, luzes que piscam sem motivo e uma presença que parece te observar. Não é PT, a versão demonstrativa de Silent Hill que desapareceu do PlayStation. Mas sim Blasfêmia, da Nakashima Studios. Ou melhor, de Issao Nakashima, natural de Goiânia, Goiás. Lançado em 2025 na Steam, Blasfêmia é um terror psicológico em primeira pessoa que transforma o cotidiano em um pesadelo. O jogador acorda sozinho em casa, ou pelo menos ele acha que está, e precisa explorar o ambiente em busca de respostas. Um pequeno apartamento prova que pode ser tão sinistro quanto uma casa mal assombrada. Aos poucos, vozes sussurradas, distorções espaciais e uma entidade que se aproxima lentamente constroem um clima de terror crescente, onde a dúvida se torna tão perigosa quanto o medo. E o passado do local ruma para a sua completa desgraça.
O visual de Blasfêmia é simples, mas cumpre sua missão com extrema eficiência. A ambientação faz com que a Abadia de Santa Carta, o lar de Valak no filme A Freira (2018), pareça ser um elemento simples de tensão. Além disso, o jogo conta principalmente com uma trilha sonora e com efeitos sonoros que mexem com o subconsciente. Um excelente título para jogar com fones de ouvido. Nele, não há combate ou armas, só tensão. É o tipo de jogo que causa mais angústia que grito. E isso é um excelente elogio. Com interface em português do Brasil, Blasfêmia acerta ao provar que nem todo terror precisa de monstros. Ou melhor, não precisa se focar em criaturas bestiais. Um apartamento pequeno e opressivo pode ser o lugar mais assustador do mundo.

Devil Inside Us (2021) é exorcismo com sotaque carioca.
Ainda no estilo do terror, mas dessa vez para o sobrenatural, Devil Inside Us começa como um típico exorcismo de filme B. Porém, ele rapidamente arrasta o jogador para um horror psicológico. Claro que cheio de surpresas. No controle do padre Aughust Heylel, de 74 anos, o jogador é chamado para purificar uma casa possuída. Até então, algo normal no gênero. Uma versão jogável de O Exorcismo de Emily Rose (2005). Porém, como toda boa trama de terror, nada é tão simples assim. O jogo mistura investigação, combate leve e interações com objetos amaldiçoados. A ambientação é caprichada, fruto do trabalho da Mr. Skull Game Studios. Aqui, temos cenários domésticos transformados em verdadeiras zonas de guerra espiritual. Seu crucifixo está sempre a mão, Mesmo assim, é seu dever investigar todos os cantos da casa.
Devil Inside Us é uma excelente pedida para fãs do terror, que traz uma experiência incrível e aterrorizante. Vale demais a pena conhecer e fica a torcida para que a marca tenha sequências.
Carlos de Arruda, em Análise no Project N da Versão de Nintendo Switch de Devil Inside Us (84/100).
Apesar do escopo pequeno, o jogo se destaca pela coragem narrativa e pelo clima tenso. Tudo isso alimentado por uma trilha sonora que é perturbadora. O personagem principal, um padre com poderes especiais, tem carisma e conta com uma dublagem marcante. E isso ajuda a manter o jogador engajado até o final. Além disso, a história por trás do jogo rememora os casos mais icônicos do Vaticano, criando uma sensação de verdade. Com temas que envolvem fé, culpa e possessão, Devil Inside Us mostra que o horror brasileiro também sabe ser filosófico. Lançado em 2021, o jogo ganhou versões para os consoles da Sony, da Microsoft e da Nintendo, além do PC. Mesmo com um foco poderoso na história, com um subtexto com questões psicológicas, Devil Inside Us ainda é capaz de deixar o jogador com medo de abrir a porta da geladeira à noite.

O Terror é de verdade, e pode estar ainda mais perto.
Fobia, Blasfêmia e Devil Inside Us não são simples jogos. Nem mesmo tentativas de fazer terror à brasileira. Eles são provas concretas de que o mercado nacional pode entregar experiências assustadoras, bem produzidas e criativas. Com influências que vão de Amnesia: The Dark Descent (2010), Agony (2018) e até Outlast 2 (2017), mas com alma própria. Essas obras trazem autenticidade. Não há vergonha em parecer indie, muito menos em explorar nossos próprios medos culturais. O resultado? Jogatinas curtas, intensas e memoráveis. Se você ainda não deu uma chance ao horror nacional, está perdendo tempo. Prepare os fones de ouvido e desligue a luz. Descubra que, às vezes, o pior dos pesadelos vem com legenda e voz em português. Então, que tal mergulhar no terror brasileiro hoje mesmo? Escolha um desses jogos e prepare-se para o medo com sotaque nacional.
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